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O jogo terminou. A falta de humanidade continuou.

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  Algumas ocasiões escancaram o que existe dentro de nós. A Copa do Mundo foi uma delas. Tenho 45 anos e já vi o Brasil ser campeão duas vezes. É uma sensação muito boa. Aliás, apesar de não entender de futebol, a energia de uma Copa é contagiante. Sempre começo encarando tudo apenas como um jogo, mas, quando a bola começa a rolar, me pego torcendo a cada lance. Desta vez, parecia que eu ia infartar. Acho que envelheci. Talvez na próxima Copa eu precise de um calmante. Mas, por outro lado, a maturidade — que independe da idade — me permitiu observar algo que foi muito além do futebol. Como todos sabem, o Brasil perdeu para a Noruega. Perder é sempre triste, especialmente em uma Copa do Mundo. Em outras épocas, surgiam debates nos jornais, nas mesas-redondas e nas conversas entre amigos. Desta vez foi diferente. O apito final mal havia soado e já apareceram juízes, especialistas de ocasião e donos da verdade distribuindo seus veredictos. Isso sempre existiu. O que me assustou não fo...

Apontar é fácil, mas segurar é o que transforma

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       É mais fácil julgar do que acolher. Mais fácil criticar do que estar presente. Mas é justamente na presença que tudo muda.      Na semana passada, a internet veio abaixo por causa do documentário de uma ex-BBB sobre maternidade. Não acompanho o programa há anos, mas o barulho nas redes sociais era tanto — acusando o companheiro dela de ter "abandonado" a mulher durante a gravidez — que resolvi conferir. Os ruídos eram imensos e desencontrados. No meu ponto de vista, não era nada daquilo que diziam. Faltou, entre tantas pessoas, a capacidade de interpretar e, principalmente, de se colocar no lugar do outro — esse exercício, infelizmente, está em desuso.      A ex-BBB sofre de depressão há anos, e quem já passou por qualquer gravidez sabe a loucura hormonal que representa. Depressão somada à gravidez, com toda a intensidade que isso carrega, resulta numa explosão de emoções. No meio de tudo isso, um homem — como a maioria deles, com...

O seu "pré-conceito" permite enxergar novas possibilidades?

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     Interessante como aquilo que predeterminamos sobre alguém ou algo nos confronta quando vemos o oposto.      Lembro de quando estava em Israel, no museu ANU, onde havia uma exposição sobre a diversidade judaica. Painéis com fotos de judeus e frases sobre o que era ser judeu e o que os conectava ao judaísmo — religião, cultura, tradição, o que fosse. As fotos eram incríveis, e uma em especial chamou minha atenção: um homem forte, cheio de tatuagens, com visual de motoqueiro, beirando os 40 anos. Ele dizia que o que mais o conectava ao judaísmo eram as tradições.      Ao ler aquilo, levei um susto. Meu pré-conceito — e aqui uso mesmo a palavra separada, o pré , aquilo que imaginariamente construímos antes de conhecer alguém — simplesmente não "cabia" naquele homem. Eu esperava que ele falasse sobre o judaísmo reformista, sobre algo mais "moderno". Tradições, não. Mal conseguia imaginar aquele homem entrando em uma sinagoga ortodoxa, honrand...

Estamos perdendo a capacidade de dialogar porque as certezas nos cegam

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           Com a polarização de tudo, vivemos enclausurados em mundos distantes — mas com metralhadoras nas mãos, prontas para atingir a longa distância qualquer um que ouse discordar de nós.      Boa parte do nosso mundo real foi transferida para o virtual. Nas redes sociais, não existe distância: chegamos a qualquer lugar com um clique, e tudo se intensifica. Quando não concordo com algo, explodo, xingo, compartilho só para ridicularizar, mando indiretas — e por aí vai. Com toda essa intensificação, vamos sendo treinados a viver cada vez mais distantes uns dos outros. O algoritmo nos serve de bandeja aquilo que curtimos e nos afasta progressivamente do que não gostamos. E quando topamos com alguém diferente, explodimos de novo.      Claro que há ideias que podemos — e devemos — mudar, e isso é libertador. Estudar, aprender algo novo que nos faça crescer deveria ser o estilo de vida de todo cidadão. Mas não é. A maioria p...

Espiritualidade não é performance

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Por que tantas pessoas que ensinam espiritualidade se expõem sem limites? A tecnologia ampliou o acesso a coisas antes inimagináveis — conhecimento, conexão, liberdade. Isso tem valor. Mas, junto com isso, a exposição deixou de ser escolha. Virou hábito, estratégia — e, para muitos, prova de existência. E é aqui que o problema começa. Mostrar algo não é sinônimo de consciência, e alcance não é sinônimo de responsabilidade. Aos poucos, a exposição deixou de ser escolha e passou a ser quase uma exigência silenciosa. O que antes causaria estranhamento hoje é aceito sem reflexão. Crianças são expostas diariamente sem que se pense no impacto. Relacionamentos são exibidos em detalhes íntimos, como se o que é verdadeiro precisasse de plateia para existir. Diante disso, a pergunta inevitável é desconfortável: quando alguém precisa se expor sem limites para ensinar algo profundo, estamos diante de autoridade — ou de uma necessidade constante de aprovação? Existe também um outro lado pouco discu...

Respeitar o outro não pode custar o seu respeito

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Nem sempre a atitude correta que devemos tomar é a mais 'bonita' aos olhos dos outros. Ao observar uma situação em que havia dor causada por um desrespeito evidente, comecei a me questionar: até que ponto devemos conviver com quem atropela o respeito e a nossa liberdade de ser quem somos? Ou melhor, até que ponto sustentamos relações que ferem o respeito por nós mesmos? Seja na família, no trabalho ou na sociedade, muitas vezes permanecemos em convivências por obrigação, por vínculos antigos ou até por respeito ao outro. Mas tudo tem um limite, e há situações em que o retorno ao convívio se torna inviável. Eu gosto das histórias bíblicas justamente porque não as romantizo. Pelo contrário, gosto do que é direto, do que é “preto no branco”, do que muitos evitam encarar. Na história em que Moisés vai até o faraó para libertar o povo, vemos algo profundo: nas primeiras pragas, o faraó endurece o próprio coração ao dizer “não”, ou seja, exerce seu livre-arbítrio. Mas, nas últimas, o...

Com o passar dos anos, o que antes era compreensível, hoje pode se tornar ridículo.

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Para algumas pessoas, a idade não é cruel pelo tempo que passa, mas pela incapacidade de perceber que aquilo que ontem era aceitável, hoje já não é mais. Costuma-se associar idade à maturidade, mas isso é uma ilusão. É verdade que o tempo poderia facilitar a compreensão da vida, porém a maturidade não é consequência automática dos anos vividos. Ela exige compromisso com a própria evolução — desejo real de melhorar. A vida nos conduz a experiências que favorecem esse crescimento, mas é preciso querer, estar aberto às mudanças e assumir a própria responsabilidade nesse processo. A maturidade não comporta amargura. Sim, carregamos traumas, medos e marcas, mas eles não existem para nos aprisionar. Pelo contrário: estão ali para nos conscientizar e nos transformar. Quando amadurecemos, entendemos que não é necessário lamentar o que passou — seja no corpo, na mente ou nas relações. Também percebemos que aquilo que antes nos servia, hoje já não nos cabe mais.  Há quem se recuse a aceitar...