A Mentira da Perfeição e a Coragem de Ser Verdadeiro
Vivemos diariamente sob a pressão de construir uma vida perfeita — e isso nos exaure.
Gosto de ler histórias bíblicas justamente por isso: elas são cheias de conflitos, ciúmes, dúvidas, disputas, dores e imperfeições. Nada distante de nós. Tudo o que sentimos hoje já existia lá. Ao mesmo tempo, percebo como tantas pessoas, em nome da religião ou do autoconhecimento, criam uma versão de si mesmas que as afasta tanto da própria essência quanto do que é divino. Calma — não estou generalizando. Conheço pessoas espiritualizadas que transborda autenticidade e a presença do Eterno. Falo de outra coisa: do esforço artificial de parecer algo, quando o que D'us espera de nós é justamente o contrário.
A verdade é que qualquer personagem bíblico é um arquétipo dentro de nós. Somos humanos — cheios de altos e baixos. Isso não significa usar “sou assim” como desculpa. Significa reconhecer que nossa humanidade é o lugar de evolução, que a perfeição não é nossa e nunca será; pertence apenas a Ele. D’us não pede perfeição, pede sinceridade. Então por que insistimos em performar uma vida perfeita? Talvez porque, consciente ou inconscientemente, queremos agradar, ser aceitos — e nesse esforço vamos nos perdendo, nos afastando da verdade e ficando exaustos. Carregar uma versão falsa de nós mesmos é pesado.
E como resolver isso? Assumindo a responsabilidade de que somos — ou melhor, estamos — humanos. Somos seres espirituais vivendo uma experiência humana como disse Pierre Teilhard de Chardin. E a maior coragem é entender que não precisamos provar nada para ninguém, apenas trilhar o nosso caminho, mesmo que esse caminho não seja bonito, instagramável ou compreendido pelos outros.
Aceitar quem somos é doloroso às vezes. Mas as crises revelam força. A vulnerabilidade abre espaço para a espiritualidade. E os altos e baixos são parte natural da vida — não falha.
A vida não é como nas redes sociais, onde ajustamos luz, ângulo e palavras para mostrar só o bonito. A vida real é o contrário: é atravessar o que é imperfeito, difícil, verdadeiro. E poucas pessoas têm coragem de sustentar sua própria verdade.
Quando aceitamos essa verdade, abandonamos a obrigação de parecer perfeitos e nos libertamos das amarras que nos prendem ao que não é nosso. É aí que começamos, de fato, a viver — não para agradar, mas para ser. Por isso, da próxima vez que encontrar alguém “perfeito”, desconfie. Mas, quando cruzar com alguém verdadeiro — com suas dores, alegrias e contrastes — reconheça. Poucos têm a coragem de ser quem realmente são em meio às imperfeições.

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