O que o medo faz com a nossa história?
O medo pode nos levar a lugares inimagináveis.
Eu adoro histórias bíblicas. Acredito que nelas habitam todos os arquétipos humanos — personagens bons e maus que também vivem dentro de nós. Somos feitos de dualidades e, por meio do livre-arbítrio, escolhemos qual ‘personagem’ vamos alimentar. Penso, então, na história de Moisés. Ele nasce numa época em que um novo faraó assume o poder — esse não conhecia a história de José. Ao perceber o crescimento e a multiplicação do povo hebreu, esse homem, o mais poderoso de sua época, foi tomado pelo medo. Medo do número. Medo da força. Medo daquilo que não conseguia controlar.
Isso soa tão atual, mesmo em um cenário completamente diferente. É por isso que digo: os modelos continuam vivos em nós. No mundo particular de cada um, o medo deveria existir apenas como alerta ou proteção - na dosagem certa. Mas, quando alimentado, ele nos aprisiona. Quantas vezes, por medo, começamos a nos podar? Aceitamos relacionamentos abusivos, superprotegemos os filhos — e, ao tentar poupá-los, impedimos que vivam suas próprias histórias. Criamos narrativas distorcidas na nossa mente que nos afastam do nosso caminho.
Assim como o faraó, que passou a maltratar e punir o povo hebreu, por sentir-se intimidado pela grandeza dele, muitas vezes nos sentimos ameaçados pelas histórias que criamos sobre o outro — ou sobre nós mesmos. Essas intimidações, quando nutridas pelo medo, são capazes das maiores loucuras. Elas nos cegam e nos roubam a própria história. O faraó, a cada dia, tornava-se mais cego. Conhecemos o desfecho: após dez pragas, o mar se abriu para que o povo hebreu atravessasse — e se fechou sobre o exército do faraó. Em meio a tantas desgraças, o coração do soberano egípicio ia se endurecendo — por escolha própria e como consequência do caminho que insistiu em seguir.
Será que, ao alimentar o medo, também vamos endurecendo o nosso coração a ponto de não conseguirmos mais enxergar? Provavelmente, sim.
Essas histórias mostram que sempre existe uma escolha: alimentar o nosso faraó interior ou caminhar rumo à libertação, como o povo hebreu. Que possamos nos libertar das intimidações e dos medos equivocados que um dia alimentamos — e seguir pelo caminho que liberta, não pelo que aprisiona.

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