QUANDO A COMUNICAÇÃO FALHA, O COLETIVO PAGA
No finalzinho de 2025 — um ano tenso, exaustivo e, entre outras coisas, marcado pela cegueira, ou burrice, partidária — ainda levamos uma surra de chinelo.
Eu realmente não sei o que acontece que, todo ano, chegamos ao fim completamente esgotados. A conversa entre amigos, conhecidos ou até no elevador é sempre a mesma: “Esse ano não acaba, né?” Não sei se Freud explicaria, se tentaria ou se também estaria exausto demais para pensar em algo coerente. O fato é que fica a pergunta: por que, agora, precisamos brigar até por um chinelo que todo mundo usa?
Esse episódio escancara exatamente como estamos. Independente de direita, esquerda ou centro — e, se você não consegue separar isso, talvez seja melhor parar de ler agora e decidir se vai comprar ou jogar sua Havaianas fora. Mas, se como eu, você gosta de pensar sobre os caminhos que nos levaram a esse comercial fatídico, seguimos juntos.
Vivemos em um mundo polarizado, extremista e impaciente, onde todos se acham donos da razão. Juízes de plantão dão veredictos o tempo todo, expondo a imbecilidade coletiva — e aqui ninguém escapa.
Falemos do chinelo. Um produto simples, que cresceu de forma brilhante. Houve um tempo em que Havaianas era coisa de gente humilde. Sim, essa é a realidade: estava nos pés de pessoas sem poder aquisitivo. Até que veio uma virada histórica de marketing, com campanhas icônicas — como a de Gisele Bündchen — que transformaram o chinelo em símbolo fashion, moderno, presente nos pés de todos e no mundo inteiro. Uma virada brilhante.
Pois bem. Por uma infelicidade — ou, na minha opinião, por um erro bizarro de marketing — a mesma empresa deu um tiro no próprio pé. Você pode ser de esquerda e ter gostado. Mas aqui a análise é comercial, não ideológica. O dono da Havaianas, até onde sei, nunca pautou seu público por posicionamento político. Ele sempre quis vender chinelo para todos. Como qualquer empresário cujo intuito é vender e crescer.
Quando se escolhe alguém para uma campanha, a história pregressa vem junto — isso é básico. Fernanda Torres havia participado recentemente de um palanque político de esquerda. Associar essa imagem ao texto da campanha no contexto de um país polarizado e inflamado, foi o cenário perfeito para o caos. A bomba foi lançada - com intenção ou não. Seja por posicionamento político do marketing, seja pela falta de interpretação de quem assistiu, o fato é que a reputação de uma empresa foi colocada em xeque. Com a imaturidade de uma criança, uns compram chinelos em protesto, outros jogam os seus no lixo. Sim, pelo que tudo indica, o erro foi do marketing. Prova disso é que, em menos de 24 horas, a campanha saiu do ar. Imagino como deve estar o fim de ano do dono da empresa — e quantos milhões foram perdidos. Cá entre nós: nenhum empresário minimamente ético e inteligente joga sua própria história no lixo por ideologia. Isso foi incompetência estratégica.
E o que fica disso tudo? Até que essa bagunça se organize, espero que não venha outra 'estratégia brilhante' - afinal, o ano tem que acabar - fica a reflexão sobre o papel do marketing — e aqui incluo também o jornalismo e todos profissionais da comunicação. Será que comunicar é instigar pensamento de forma respeitosa, inclusive através da arte, informando sem incendiar? Ou é botar fogo em um país e em um mundo já tão polarizado? O que seria mais funcional e respeitoso? Acho que a resposta é óbvia.
O mais assustador é que, de quem se espera maturidade, nasce a discórdia. Reflito diariamente sobre o papel dos profissionais da comunicação. Será que conseguem, de fato, estar acima de qualquer lado político e agir com ética? Hoje, acredito que a maioria não. Como uma equipe inteira aprova um texto daqueles? Será que a IA 'ajudou' — contaminada por um viés político percebido? A IA 'aprende' com a gente. Ela reproduz nossos padrões. É uma bênção, mas também pode ser uma desgraça para quem não sabe usá-la.
No fim, em um mundo tão radicalizado, poderemos sair de férias usando o chinelo que quisermos, independentemente do que acreditamos? Ou seremos julgados pela imbecilidade associada a um calçado?
Aos profissionais de comunicação, espero que isso seja um divisor de águas. Um chacoalhão. Um 'acorda'. Quem comunica — seja no marketing, no jornalismo, na assessoria ou em qualquer área da comunicação — carrega uma responsabilidade tão grande quanto a de um médico: orientar, cuidar, não ferir. O que temos visto é o oposto. Uma irresponsabilidade que cega, radicaliza e empurra todos para um extremismo que adoece e mata diariamente.
Que possamos acordar a tempo. Porque, do jeito que estamos indo, em breve andaremos descalços — e talvez com um lençol amarrado ao corpo. Que o próximo ano seja de responsabilidade coletiva e respeito à individualidade.

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