A minha história não anula a sua.
Toda versão é verdadeira dentro de quem a viveu — e por isso merece respeito.
Assisti à série Meu Ayrton, da Adriane Galisteu, na HBO, e confesso: fiquei profundamente mexida. Primeiro, pela elegância dela ao contar algo tão íntimo, uma história que ganhou milhões de versões — muitas delas baseadas em fofocas, maldades e distorções que só servem para destruir. No mundo de hoje — e de sempre — mas principalmente nesse de agora, tão rápido em julgar, as pessoas das redes se dão o direito de sacramentar verdades às quais nem tiveram acesso, filtradas por seus próprios vieses.
Na série de apenas dois capítulos, Adriane não fala mal de ninguém. Pelo contrário: legitima a dor de uma mãe que perdeu o filho — uma mãe que não a aceitava. Reconhece a importância da Xuxa na vida de Ayrton e toca em vespeiros que o público insiste em transformar em guerra, como se fosse obrigatório escolher ‘vilão e mocinho’.
Adriane dá um show de vida ao mostrar que a vida só ‘vale a pena’ para quem amadurece. A maturidade nos entrega a plenitude da vida real — com suas dores, desamores, alegrias e mudanças de rota que acontecem sem pedir permissão.
Adriane está incrivelmente linda — sempre foi — mas há uma beleza que a maturidade desperta e que transcende a física. Assim como ela ‘veste’ uma roupa como ninguém, ela ‘veste’ a própria história como ninguém. Com respeito, ela nos lembra que, quando duas pessoas vivem algo em comum, a minha versão não anula a sua.
E como precisamos amadurecer essa ideia. Vivemos nessa ânsia constante de ter razão, querendo empurrar ao outro nossas crenças goela abaixo — como acontece na política, onde se infantiliza o debate e se chama o diferente de errado. Sim, existem limites e valores inegociáveis para cada um de nós, mas, na maioria das vezes, nos perdemos nas pequenas guerras do ego, cegos, querendo matar a verdade do outro.
Galisteu conta a própria história com suas imperfeições, tristezas e alegrias — mas conta a sua verdade, de forma linda. E, quando vivemos nossa verdade, a beleza transcende, mesmo com todas tristezas. Na série, ela fala de sua vida com Ayrton, mas isso quase passa para o segundo plano. O que vemos é uma mulher que abraçou a maturidade, que sabe seu lugar, respeita o lugar do outro e veste sua história de forma única e intransferível.
Se Ayrton, vivo, estaria com Galisteu? Ninguém poderá responder. A vida não permite esse tipo de resposta. Mas que ele viveu um ano e meio com uma mulher — ainda menina — que o brindou com frescor, originalidade e humanidade, isso fica claro. Ele foi presenteado com mais uma versão da própria história, uma que muitos contam, mas só ele carrega na sua alma, assim como ela carrega na dela.
No fim, o que a série nos entrega é algo maior do que um romance famoso: é uma aula de humanidade. É um lembrete de que histórias não competem — coexistem. E que, quando assumimos a nossa verdade, ela deixa de nos ferir e começa a iluminar o caminho. Galisteu brilha em sua própria história.
Como essa menina escreve bem, escreve com o coração de gente grande. Parabéns
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