Apontar é fácil, mas segurar é o que transforma


 

    É mais fácil julgar do que acolher. Mais fácil criticar do que estar presente. Mas é justamente na presença que tudo muda.

    Na semana passada, a internet veio abaixo por causa do documentário de uma ex-BBB sobre maternidade. Não acompanho o programa há anos, mas o barulho nas redes sociais era tanto — acusando o companheiro dela de ter "abandonado" a mulher durante a gravidez — que resolvi conferir. Os ruídos eram imensos e desencontrados. No meu ponto de vista, não era nada daquilo que diziam. Faltou, entre tantas pessoas, a capacidade de interpretar e, principalmente, de se colocar no lugar do outro — esse exercício, infelizmente, está em desuso.

    A ex-BBB sofre de depressão há anos, e quem já passou por qualquer gravidez sabe a loucura hormonal que representa. Depressão somada à gravidez, com toda a intensidade que isso carrega, resulta numa explosão de emoções. No meio de tudo isso, um homem — como a maioria deles, com todo o respeito — tentando encontrar seu espaço na paternidade, sem ainda ter acesso real ao bebê. Toda gravidez é muito individual, e são poucos os homens que conseguem começar a exercer a paternidade ainda na gestação. Precisamos olhar para esses parceiros e reconhecer essa limitação. Isso não dá o direito de ser desrespeitoso com a parceira, o que, no meu entendimento sobre o documentário, não foi o caso.

    Vi uma mulher cuja depressão ativou todas as suas vulnerabilidades. Um homem que não sabia como agir diante do novo. E um mundo inteiro procurando culpados. Que erro. Que pena que ninguém disse a essa mulher: está tudo bem. Hormônios, inseguranças, medos e alegrias estão todos juntos na máquina de lavar — e é justamente dessa confusão, desse desconhecido que você está vivendo, que emerge a beleza única da maternidade. Nunca estaremos prontas como imaginamos ou idealizamos, mas é exatamente daí que surgem as histórias reais e a vontade de dar o nosso melhor. Melhor, não perfeição.

    A maternidade é tudo diferente do que imaginamos. E quando entendemos e aceitamos isso, abrimos a porta para algo muito mais incrível: a nossa maternidade real. Isso não significa ausência de problemas — muito pelo contrário. Se você não quiser desafios, não tenha filhos. Mas se estiver aberta a atravessar essa porta, tudo pode se tornar muito mais grandioso.

    Vejo mães idealizando o parto normal — e tudo bem ter um plano — mas se não acontecer, a frustração não pode ser maior do que a grandiosidade do nascimento de uma criança. Quando vi o documentário, tive vontade de abraçar aquela mulher, tamanho o sofrimento que carregava. Ver a angústia dela depois de horas de trabalho de parto e uma cesárea não planejada me doeu a alma — e confesso que senti raiva de todos os profissionais que a deixaram sofrer assim, sem mostrar a ela que a chegada daquela criança era muito maior do que a forma como iria nascer.

    E não faltam por aí quem tenha vivido a maternidade, mas esqueceu como é estar no início.

    Um dos lugares mais cruéis é a militância da maternidade: como ferimos o outro com nossos achismos e modismos sobre o que um casal deve fazer, qual tipo de parto escolher, como educar os filhos — e todas as bizarrices que esse julgamento carrega.

    Em dois episódios, vi uma família como tantas outras — com situações particulares, mas semelhante a tantas — tentando se encontrar naquele mundo novo, desafiador, assustador e desconhecido que é a maternidade e a paternidade. É inaceitável metralhar quem está dando os primeiros passos nesse caminho.

    Que possamos, antes de apontar, ajudar. Respeitando histórias, diferenças e escolhas. Que a nossa humanidade acolha — mesmo aquilo que jamais faríamos — porque o respeito ao outro é o que nos torna capazes de verdadeiramente fortalecer quem está ao nosso lado. Porque no fim, todos nós já precisamos que alguém nos segurasse. Afinal, a humanidade que temos entre nós é o que nos sustenta.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Perdemos a capacidade de dialogar?

Quando a DOENÇA DA SOCIEDADE começa em CASA.

A minha história não anula a sua.