O jogo terminou. A falta de humanidade continuou.
Algumas ocasiões escancaram o que existe dentro de nós. A Copa do Mundo foi uma delas.
Tenho 45 anos e já vi o Brasil ser campeão duas vezes. É uma sensação muito boa. Aliás, apesar de não entender de futebol, a energia de uma Copa é contagiante. Sempre começo encarando tudo apenas como um jogo, mas, quando a bola começa a rolar, me pego torcendo a cada lance. Desta vez, parecia que eu ia infartar. Acho que envelheci. Talvez na próxima Copa eu precise de um calmante. Mas, por outro lado, a maturidade — que independe da idade — me permitiu observar algo que foi muito além do futebol.
Como todos sabem, o Brasil perdeu para a Noruega. Perder é sempre triste, especialmente em uma Copa do Mundo. Em outras épocas, surgiam debates nos jornais, nas mesas-redondas e nas conversas entre amigos. Desta vez foi diferente. O apito final mal havia soado e já apareceram juízes, especialistas de ocasião e donos da verdade distribuindo seus veredictos. Isso sempre existiu. O que me assustou não foram as opiniões, mas a falta de respeito, que ultrapassou todos os limites — tanto por parte de pessoas comuns quanto de jornalistas.
Não me considero apta a dizer se os jogadores poderiam ter rendido mais, se o técnico errou ou se alguém deveria ter feito diferente. Não tenho esse conhecimento. Mas, como ser humano, vi algo muito preocupante: a desumanização.
Em um programa de televisão, um jornalista famoso, ao saber que um repórter iria falar com o técnico da seleção, Carlo Ancelotti, respondeu ao vivo: "Então manda ele à m...". Os colegas de estúdio imediatamente pediram que ele parasse. Sinceramente, em que momento isso passou a ser considerado aceitável?
Também vi apresentadoras dizendo que seus filhos estavam chorando pela derrota e que não sabiam o que dizer a eles. Na hora pensei: isso é sério? Chegamos ao ponto de pais perderem o chão por causa de um jogo de futebol? Que valores estamos ensinando às crianças? Sim, elas podem ficar tristes. Faz parte. Mas também faz parte aprender que, em qualquer competição, apenas um time será campeão. E aqui me permito um pouco de sarcasmo: todos os meninos que colecionaram o álbum da Copa já sabiam, ou deveriam saber, que apenas uma seleção levantaria a taça. Logo, centenas daqueles jogadores não seriam campeões. Se nem essa realidade simples somos capazes de ensinar às crianças, talvez o problema nunca tenha sido o futebol, mas a forma como lidamos com a frustração, a derrota e os limites da vida.
Enquanto isso, especialistas, comentaristas e juízes de plantão distribuíam culpados: a culpa era do técnico, de um jogador, de outro, da convocação, da estratégia. Durante a transmissão, uma comentarista deixou transparecer tanta antipatia por um atleta que a emoção pareceu falar mais alto do que o profissionalismo, que bizarro.
No fim das contas, o que ficou evidente não foi o futebol, mas o comportamento das pessoas. A facilidade com que muitos transformam opiniões em certezas e críticas em crueldade.
É claro que todos têm direito de expressar o que pensam. Mas existe uma diferença enorme entre analisar e atacar. O mundo já está cheio de ódio. Qual é a necessidade de usar as redes sociais para humilhar pessoas que nem conhecemos? E, convenhamos, a imensa maioria de nós — inclusive muitos jornalistas — não têm conhecimento suficiente para emitir sentenças definitivas.
Há ainda quem critique a vida pessoal dos jogadores, seus relacionamentos e suas famílias, mas são exatamente essas pessoas que consomem esse tipo de conteúdo. É o velho ditado: o sujo falando do mal lavado.
Na boa, saia das redes sociais. Antes de publicar qualquer comentário, faça uma pausa e se pergunte: eu realmente preciso escrever isso? Estou contribuindo com alguma coisa ou apenas despejando frustração?
O fato de um jogador ganhar muito dinheiro não lhe tira a condição de ser humano. Dinheiro não compra saúde mental, nem protege alguém da dor, da vergonha ou da humilhação pública.
Nessas horas, lembro de uma frase que minha mãe sempre dizia: "Tudo o que você planta na casa dos outros floresce na sua."
Vale a pena pensar nisso. Porque o jogo acabou. Mas as sementes que cada um escolheu plantar durante esses dias continuarão florescendo por muito tempo. E você? O que está cultivando?
Comentários
Postar um comentário