O seu "pré-conceito" permite enxergar novas possibilidades?


    Interessante como aquilo que predeterminamos sobre alguém ou algo nos confronta quando vemos o oposto.

    Lembro de quando estava em Israel, no museu ANU, onde havia uma exposição sobre a diversidade judaica. Painéis com fotos de judeus e frases sobre o que era ser judeu e o que os conectava ao judaísmo — religião, cultura, tradição, o que fosse. As fotos eram incríveis, e uma em especial chamou minha atenção: um homem forte, cheio de tatuagens, com visual de motoqueiro, beirando os 40 anos. Ele dizia que o que mais o conectava ao judaísmo eram as tradições.

    Ao ler aquilo, levei um susto. Meu pré-conceito — e aqui uso mesmo a palavra separada, o pré, aquilo que imaginariamente construímos antes de conhecer alguém — simplesmente não "cabia" naquele homem. Eu esperava que ele falasse sobre o judaísmo reformista, sobre algo mais "moderno". Tradições, não. Mal conseguia imaginar aquele homem entrando em uma sinagoga ortodoxa, honrando práticas que talvez nem combinassem com sua estética ou estilo de vida — mas ele tinha todos os direitos, como qualquer um, de ser quem é.

    Todos nós carregamos essas ideias fixas. E é libertador ir desfazendo, ao longo da vida, essas camadas que nos limitam aos espaços onde já nos sentimos familiares. Porque podemos ter um visual excêntrico e amar o clássico. Podemos amar as tradições e pertencer a mundos onde a contemporaneidade seja aconchegante. Quando entendemos isso, temos a oportunidade de sair dos julgamentos antecipados que criamos até para nós mesmos — como, por exemplo, a ideia de que realização tem idade e prazo de validade.

    Quando comecei a sair da caixa dos meus pré-conceitos sobre aquela foto, passei a imaginar aquele homem sentado, saboreando uma refeição em uma mesa de chag — uma festa —, fazendo questão de honrar algo que seus avós faziam, mesmo que eles, talvez, não tivessem o mesmo visual dele.

    Venho de uma casa onde as diferenças eram celebradas, muito por influência do meu pai, e nunca ouvi que algo era "estranho". E ainda assim, esses julgamentos antecipados chegaram até mim — e chegam a qualquer pessoa. Não os de intolerância, mas os mais sutis: aqueles que criamos sobre nós mesmos e que viram um "conforto" do qual nem percebemos que precisamos sair.

    Essas ideias fixas, muitas vezes, dão veredictos sobre pessoas, estragam relações e adoram slogans como "ele é assim mesmo, não tem jeito." Os vemos em campanhas que até têm boa intenção, mas que já chegam limitadas — sobre homens, mulheres, religiões, situações. Como isso é comum nos dias de hoje, e vindo de todos os lados.

    Que possamos nos libertar dos pré-conceitos. E que nosso pós-conceito seja flexível, e navegue por estilos, cores e mundos onde o "diferente" tem o direito de estar — e onde a diversidade é celebrada com elegância e acolhimento.


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