Estamos perdendo a capacidade de dialogar porque as certezas nos cegam

   

     Com a polarização de tudo, vivemos enclausurados em mundos distantes — mas com metralhadoras nas mãos, prontas para atingir a longa distância qualquer um que ouse discordar de nós.

    Boa parte do nosso mundo real foi transferida para o virtual. Nas redes sociais, não existe distância: chegamos a qualquer lugar com um clique, e tudo se intensifica. Quando não concordo com algo, explodo, xingo, compartilho só para ridicularizar, mando indiretas — e por aí vai. Com toda essa intensificação, vamos sendo treinados a viver cada vez mais distantes uns dos outros. O algoritmo nos serve de bandeja aquilo que curtimos e nos afasta progressivamente do que não gostamos. E quando topamos com alguém diferente, explodimos de novo.

    Claro que há ideias que podemos — e devemos — mudar, e isso é libertador. Estudar, aprender algo novo que nos faça crescer deveria ser o estilo de vida de todo cidadão. Mas não é. A maioria prefere a superficialidade: vê algo, faz um recorte, não aprofunda em nada e começa a construir certezas que mais cegam do que libertam. Com isso, lançamos no mundo imbecis em potencial. Aqui vai um alerta especial aos pais: comprem o desconforto de insistir diariamente para que seus filhos estudem. Sei que não é fácil, mas um dia a semente floresce — e colhemos os frutos.

    Nossos valores, por mais sólidos que sejam, precisam ser conversáveis. Existe aí um paradoxo só aparente: valores são intocáveis — e devem ser — mas não podem ser mudos. Um valor que não aguenta conversa não é convicção, é teimosia. Quem os vive de forma saudável sabe disso: dialoga, ouve, e às vezes até agrega algo novo ao que já carregava. O problema são aqueles que saem pelo mundo metralhando os outros em nome de valores que, no fundo, são apenas ideias superficiais disfarçadas de convicção. E essa postura não é exclusiva de quem rotulamos como extremista. Vemos jornalistas fazendo caras em entrevistas ao discordar, quando poderiam respirar fundo e abrir o debate. A polarização nos atinge a todos, não apenas à caricatura do radical.

    Todo dia temos a chance de refletir sobre o caminho que estamos trilhando. Maturidade é isso: melhorar a todo tempo. Mas talvez a pergunta mais honesta não seja "estou evoluindo?" — e sim: quando foi a última vez que confrontei uma ideia e revisitei uma certeza? Se a resposta demorar a chegar, vale prestar atenção. Porque a "certeza" que não se questiona não nos protege — ela apenas nos isola, cada vez mais confortavelmente, dentro da nossa ignorância.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Quando a DOENÇA DA SOCIEDADE começa em CASA.

Perdemos a capacidade de dialogar?

Por favor, não tenha mais filhos.